
Eu sou uma Mulher
poema de Marina Colassanti
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar
Os homens vertem sangue
Por doença
Sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.
Em nós
O sangue aflora
Como fonte
No côncavo do corpo
Olho d´água escarlate
Encharcado de cetim
Que escorre
Em fio
Nosso sangue se dá.
De mão beijada
Entrega-se ao tempo
como chuva ou vento.
O sangue masculino
tinge as armas
e o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga as bandeiras
mancha a história.
O nosso vai colhido
Em brancos panos
Escorre sobre as coxas
Benze o leito
Manso sangrar sem grito
Que anuncia
A ciranda da Fêmea.
Eu sou uma mulher
Que sempre achou bonito
Menstruar
Pois há um sangue
Que corre para a morte.
E o nosso
Que se entrega para a LUA.
* * * *
Este belo poema de Marina Colassanti me chegou no “Dia Internacional da Mulher”.
Se lêssemos apenas o título, repetido no primeiro verso, poderíamos pensar: As mulheres andam tão confusas pelo modo como se sentem refletidas no olhar dos homens, que precisam reafirmar o gênero a que pertencem. Ficariam mais próximas deles se dissessem: “Olhem, apesar de tudo, dessa igualdade que conquistamos na sociedade, de podermos ser chefes de homens em empresas, de nossa voz ser agora ouvida e nossas opiniões terem ganhado peso, de podermos viver do nosso trabalho, de ansiarmos por outras coisas além de ter um homem e um amor, de termos conquistado a liberdade sexual e outras liberdades, – é preciso dizer – ainda assim, não nos bastamos. E não é porque somos mulheres, mas porque somos pessoas. Os homens também não se bastam”.
No poema acima, percebe-se um resquício de disputa entre mulheres e homens. Há um sangue – o das mulheres, que se entrega à lua, - ao sonho de amor, à esperança – e há um sangue que se entrega à morte: o dos homens. Ora, o sangue que se entrega à lua é justamente o sangue que revela o fracasso de uma possibilidade: a da fertilização do óvulo pelo espermatozóide, início de uma vida, e que reverte em morte quando não se concretiza.
Se um dia o homem dominou, isto se deve às circunstâncias em que viviam homens e mulheres. Estamos vivas graças aos homens fortes e corajosos que nos defenderam de ataques os mais diversos, desde o tempo em que vivíamos em cavernas ou éramos nômades, como voltamos, de alguma forma, a ser. Eles lutaram para nos alimentar e aos nossos filhos, sem nem ao menos saber que tinham, nessa obra, direito a reclamar co-autoria. As mulheres, por sua vez, faziam o serviço necessário: eram gratas e lhes davam prazer, com trabalho, carinho e sexo. Ocupavam-se de serviços menos duros, compatíveis com sua musculatura naturalmente mais frágil. É provável que vibrassem quando os homens faziam descobertas que beneficiavam aos dois. Homens e mulheres eram companheiros. Nas sociedades primitivas havia regras bem estabelecidas e cada sexo ocupava seu lugar e desempenhava sua função. Em nenhuma delas as mulheres eram excluídas e, em muitas, vigorou o matriarcado. Sempre pela influência do pragmatismo ou de uma crença, as mudanças eram introduzidas e se mantinham enquanto fossem necessárias. O homem mais forte era o mais poderoso e a ele cabiam certas regalias respeitadas e quiçá invejadas pelos outros. O prestígio de cada um dependia de suas aptidões e do grau da serventia delas para o grupo todo. No começo, os seios das mulheres tinham o formato exato para amamentar os filhos e, no entanto, os homens gozavam, e também elas, com o corpo que possuiam. Cidades surgiram, cresceram, e com elas novas regras e leis. Agora, os motivos econômicos passaram a regê-las de forma acentuada. As mudanças foram de tal ordem que, mais tarde, descobridores de ‘velhos mundos’ sentiram como estranho o que lhes dera origem.
No poema há um elogio da mulher. Sobre os homens é dito: “(...) O sangue masculino tinge as armas e o mar (,) empapa o chão dos campos de batalha (,) respinga as bandeiras, mancha a história. (...)”. Como se as mulheres dissessem dos homens: “Olhem como são truculentos e destrutivos; olhem como os homens são sanguinários e criam condições de morte. São assassinos também de nossos sonhos, de nossas vidas. Para nos impormos é preciso que sejamos iguais a eles e que aprendamos a nos defender, atacando-os, como o fazem. Para sobreviver à dominação masculina, precisamos ser guerreiras.” A subjetividade masculina é, aqui, despojada de qualquer delicadeza.
O que se encontra, hoje, no inconsciente feminino, é o mito da mulher romântica vitimada pelo homem insensível. Na verdade, este mito se funda na nostalgia do homem que um dia a protegeu de perigos e riscos brutais contra os quais ela não podia, de fato, se defender... Os corpos femininos transformam-se em corpos de amazona para fazer face às disputas, mas também aos embates amorosos com o homem “brutal”, pois é para ele que se dirige o desejo da mulher. Ignorado esse mito, custa aos homens gentis compreenderem a preferência aparentemente perversa das mulheres.
Nos nossos dias, porém, de nada serve a força física do homem. Humilhado diante de armas muito mais poderosas do que ele, não sabe como empregar sua força. Ressurge então como um narcísico. A tecnologia tornou essa força dispensável: a habilidade e a destreza no uso da técnica dispensam-na, assim como a criatividade. A coragem tornou-se uma faca de dois gumes. O desenvolvimento intelectual, a riqueza e a desenvoltura no sexo passaram a ser as armas que surtem efeitos embora nem sempre satisfatórios e, muitas vezes, paradoxais. A desvantagem é a impotência diante do poder de outros homens e de seus artefatos de destruição. As mulheres entram para o grupo dos novos inimigos. E eles se dizem: “Elas nos desnortearam, não precisam mais de nós, tornaram-se vorazes sexualmente e nos fazem sentir medo, essas deusas alforriadas. Podemos, todavia, transformá-las em corpos carentes e desvalorizados, em mentes impotentes diante de nosso desdém, em espíritos enfraquecidos pelo nosso abandono, assim minaremos seu poder recém-adquirido.”
A luta continua. As duas partes perdem. Homens e mulheres buscam, no final das contas, o reconhecimento de sua importância. Buscam o prazer e a felicidade. Buscam o carinho e a possibilidade de terem em quem confiar. Valores indesejados dizimam estes sonhos. Valores mal interpretados ou mal compreendidos de parte a parte. Não existem culpados. Existem vítimas da dificuldade de reinventar o que se apresenta como novo.
Que tal inaugurar-se o “Dia Internacional do Homem”? Mandar-lhes flores e palavras de conforto e de gratidão? Homens e mulheres, que tal darem-se as mãos e se abraçarem? O desejo de vida habita cada um de nós!
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